Engraçado isso: faz que sim, sorri, faz que não, banca a espontânea: tudo farsa! Não acho estranho. Não me surpreendo com esse tipo de de gesto. Os conheço de outras datas. Sei dançar a música que está tocando. A desfaçatez é engraçada. Não. Não estive indiferente com a sua presença. Não sou indiferente nem com um trocador de ônibus, se eu o visse duas vezes. Não fiquei indiferente a você. Mas preferi percebê-la apenas com o recanto dos olhos. Nunca fomos amigos, bancar o simpático não daria pra mim. Pura falta de motivo. Engraçado, ouvi diversas vezes a frase: Estás com ela? Por quê? Ela só se interessa por esquisitos! Ouvi isso de diferentes modos, vindo das bocas mais distintas. No lugar de idiotas, já ouvi: imbecis, pela-sacos, boçais, burros e estranhos. Sempre me dissertam isso com quem faz exceção a regra ao se referir a mim, e hoje eu tive certeza de que fui o estrangeira da lista. Por mim tudo bem... Não é de hoje que penso que você se desperdiça. Te vendo assim, voltando a te olhar, percebi o que já sabia, há em você uma tristeza subterrânea, uma magoa encarcerada em ra-rás, um desnorteamento despercebido. E te vendo assim, tão qualquer nota, tive a certeza de do meu egano. Que tive um resquício infantil aflorado, uma mentira que se conta para si, que se esquece de que deveria ser desfeita. E vendo tudo isso, achei ótimo que o tempo tenha passado e que tenha nos jogado para qualquer canto longe um do outro. Por agora, fica evidente que minha capacidade de ficcionista foi maior que o nosso esbarrão. Enfim, que o que houve, não foi imprescindível e, portanto, teria sido mais sábio tê-lo evitado. Mas a sabedoria é um fruto do tempo. Só agora me vem. Bom vê-la num dia como hoje. Um pouco triste em testemunhar um equívoco retroativo, mas contente em saber que a cegueira, por ora, me erra.